O CERUMANO é mau

6 07 2008

Diria e até escreveria talvez um bom brasileiro, analfabeto funcional que só, ao ler as notícias recentes sobre as FARC e o seqüestro da famigerada Ingrid Betancourt. E, mesmo em um número enorme de notícias e reportagens, não vi a explicação do por quê  — o que motiva, não o que justifica — dos seqüestros que essas Forças promovem. Traduzindo das notícias ficou a idéia do terrorismo, amplamente pregado por aí, o mau pelo mau. E, sem nem saber o que é terrorismo, saem classificando a torto e a direito como querem a bel prazer.

Pois bem, as FARC é um movimento inspirado na Revolução Cubana e em outras revoluções proletárias no mundo, composto por mestiços e índios colombianos (o proletariado rural) que sofrem com a concentração de terras e renda. Surgiu na década de 50 e não possuía ligação alguma com o narcotráfico. Com ideais marxistas e movimentos guerrilheiros, querem a distribuição das terras e da renda do país, que é segundo no ranking de produção de petróleo na América Latina. Eram apoiados por Cuba e pela URSS e acreditam que através da máquina pública é impossível obter as reformas desejosas (o que pode ser ilustrado com o suicídio, pelas versões oficiais, de Salvador Allende, no Chile); polarizados pelos partidos de direita, apoiados pelos EUA. Não querem, como pode ser ver no GNT.doc — O seqüestro de Ingrid Betacourt, até hoje, conversação com o governo, querem tomar o poder. Para tanto, criaram uma desterritorialização (invalidação das leis colombianas) no sul Colômbia (região mais pobre), onde é sediada a guerrilha.

Colômbia -- área de atuação das FARC

Colômbia -- área de atuação das FARC

O narcotráfico é uma força que promove um Estado paralelo. (O que o Brasil conhece bem nas favelas.)

A coca é uma cultura de mais de cinco mil anos cultivada pelos índios e usada para diversas funções. E, na década de 50, inventou-se o refinamento da cocaína de forma barata para que seja usada em vários produtos, inclusive na Coca-Cola. Logo, a coca fica muito mais rentável: uma saca de coca (60 kg) 280 dólares; em comparação, milho, a saca, 39 reais. E, a partir da pasta de coca, produzem a droga, a qual matéria-prima é comprada dos índios e mestiços do sul que plantam a coca, numa associação com os narcotraficantes.

Na década de 80/90, há o enfraquecimento do bloco socialista, que é a fonte de finciamento até então das forças. Então, surge a oportunidade das FARC de se aliarem ao narcotráfico para continuar a guerrilha. Nessa relação, as FARC oferecem o policiamento e proteção aos narcotraficantes, enquanto esses pagam impostos, o que sustenta a guerrilha.

Em 1995 – Plano Colômbia, objetiva ação militar conjunta da erradicação do tráfico de drogas. Na América do Sul, nenhum país fronteiriço aderiu, pois não queriam que a guerrilha das FARC se expandisse, já que a sede da guerrilha se situa em áreas de fronteira com o Brasil, Peru, Equador e Venezuela. Todavia, em 2000, os EUA apóiam e coordenam forças junto à Colômbia no Plano Colômbia reativado com Uribes, atual presidente da Colômbia, para acabar com o narcotráfico. Ou não, né. Já que a distribuição de drogas para os EUA é feita pelo cartel Tijuana, numa cidade fronteiriça com os EUA. Portanto, você pergunta-se: então por que diabos os EUA possuem uma base militar na Colômbia?

Com o fim do “Império do Mau” no século XX, agora a máquina de guerra (EUA, que nunca viveu uma guerra mundial física) cria os “terroristas” e o “terrorismo”, em que obviamente, há o conceito maniqueísta, do bem e do mau, simplesmente. Versão simplificadas para a população mal-instruída comprar opinião, porque afinal preocupar-se com o mundo é demais, estudar Geopolítica é demais, atingir a catarse por meio da história de vida da pessoa que ficou presa durante anos é importante. Questões como petróleo colombiano estar no sul da Colômbia não importam. Questões como o presidente colombiano ser neoliberal e privatizar a extração do petróleo não importam. Daí a importância real de estudar História, como argumenta o artigo da Piauí desse mês, “O que aprendemos, se é que aprendemos alguma coisa?”. Comparamos esses “teorroristas”, ETA, IRA, FARC, com coisas terríveis que aconteceram no século XX, como as invasões de Hitler, as milhares de mortes nas mão de Stálin, sem perceber que esses terroristas (não citei Bin Laden, porque é outro assunto) anceiam por alguma justição social. Não digo que justifica, mas motiva-os a seqüestrar  — que é inclusive tática de guerrilha —, a promover atentados em cidades, tudo para chamar atenção para suas causas. No entanto, o que fazemos é ignorar a causa.

Nas notícias, é enfatizado de forma veemente os seqüestros — principalmente agora com a Betancourt —, o narcotráfico que as FARC abraçam, mas não a situação em que se encontram a população mais pobre da Colômbia. Polarizam e criam uma polêmica em torno de um pessoa, para não darmos atenção às questões que irão resolver os problemas dessas pessoas. Além disso demonizam as associações e pessoas — grite aí: Hugo Chávez —, porque que até mesmo o Greenpeace são “terroristas ambientais”, nas palavras do Bush.

Então, é hora de deixar o discurso polarizador (para não dizer manipulador) da mídia e pensar que há dois lados –  dualidade humana — e que o ser humano é bom e que não vai, portanto, causar sofrimento somente por causar. Porque se não, retorcedemos anos de Filosofia e devemos ceder todos os nossos direitos ao Estado para o bem de todos — que sabemos que não acontece, como bem visto nas ditaduras e monarquias absolutistas.